Apoiando mulheres sobreviventes da violência doméstica - a estória de Rassula

Apoiando mulheres sobreviventes da violência doméstica - a estória de Rassula

A existência da Plataforma Frontline SMS contribuiu na garantia de uma resposta flexível às vítimas de violência doméstica. Importa referir que se pode aceder a plataforma através do envio gratuito de uma SMS de pedido de socorro para o número 90603. Nos primeiros 6 meses, foram recebidos 106 SMS e 61 vítimas deram entrada no Centro de Atendimento Integrado, após ter-se posto em contacto através dum SMS. Além disso criamos grupos de pares, para que com apoio de um psicólogo, as mulheres iniciem o seu processo de reabilitação emocional e mental.

Benigna Magaia, Project Manager, Medicos del Mundo Espana-Mozambique office

CONTEXTO

Apesar da existência de vários mecanismos tanto institucionais como comunitários para dar resposta às mulheres e as raparigas vítimas de violência baseada no género, assiste-se ao nível dos Centros de Atendimento Integrado, uma alta desistência das vítimas no que concerne ao seguimento dos processos após a denúncia. As motivações das desistências têm a ver com o medo do agressor, dependência financeira e afetiva em relação ao agressor, perceção de que nada acontece com o agressor quando denunciado e dificuldade no acesso a instituições de denúncia. Para colmatar o índice de desistências será instalada uma plataforma de telefonia móvel e o respectivo suporte de informático de gestão que possa garantir o contacto permanente com a vítima, propiciando que ela se sinta segura em denunciar, uma vez que as SMS chegarão ao CAI em tempo real, permitido uma resposta rápida eficiente e personalizada à vítima.

OBJETIVOS

  • Contribuir à criação dum sistema integral na defensa dos direitos humanos que facilite a realização pessoal de mulheres e raparigas do Distrito da Matola.
  • Fortalecer a intervenção público-comunitária de prevenção, tratamento e protecção de vítimas de violência baseada no género no Distrito da Matola (Maputo).

RESULTADOS

  • 30 palestras realizadas através de ativistas comunitários e pontos focais de género.
  • 294 Vítimas de violência doméstica as identificadas das quais 83 foram encaminhadas ao Centro de Atendimento Integrado.
  • Recebidos 106 SMS através da plataforma de denuncia e envio de pedido de socorro com número curto: 90603.
  • Os cantos de aconselhamento por sua vez sensibilizaram 9.208 raparigas e 6.702 rapazes e encaminharam ao Serviços de Atendimento aos Jovens e Adolescentes: 101 raparigas e 49 rapazes.
  • Criado o grupo de apoio mútuo, composto por 21 mulheres sobreviventes de violência doméstica.

FACTOS E NÚMEROS

  • A província de Maputo, onde Matola é o distrito mais povoado, é a segunda em termos de elevados índices de Violência baseada no Género em Moçambique: 20,4% das mulheres afirmavam terem sofrido violência física e sexual, 17,4% violência física e 33,7% violência sexual.

TESTEMUNHO

a estória de Rassula

"Meu nome é Rassula Nurru, tenho 62 anos de idade e sou mãe de 12 filhos. Fui vitima de violência e abandonada pelo meu marido, acusada de feiticeira. Através deste projeto e da Associação Comunitária para o Desenvolvimento da Mulher- ACODEMU, tive coragem de denunciar o meu marido e pedir ajuda. O meu caso foi encaminhado para a Procuradoria Distrital da Matola onde foi decidido, que por não ter condições de me sustentar financeiramente, o meu marido deverá pagar um valor mensal de 3,000 meticais. Desde 2016 que ele tem cumprido o acordado.

Além do encaminhamento do meu caso para a Procuradoria, no Centro de Atendimento Integrado, recebi muito apoio do psicólogo que me ajudou a reencontrar- me, pois eu achava que com o abandono do meu marido era o fim a minha vida e que esta não tinha mais sentido.

Depois de algum tempo fui convidada para fazer parte de um grupo de apoio mútuo. Fiquei bastante feliz com o convite, principalmente quando me foi explicada a essência do mesmo que é a de ajudar outras mulheres que passaram pela mesma situação que eu. No grupo partilhei a minha estória com outras mulheres que passaram por situação de violência, ouvi estórias de outras e aí percebi que não estou sozinha.

Sinto me aliviada, em cada encontro do grupo que participo pois encontro mais força; vou conhecendo mais estórias de mulheres que sofrem de violência doméstica e também tenho ajudado a quem precisa, indicando o Centro de Atendimento Integrado, como parte da solução dos seus problemas."