Os Serviços à População Rural
Entrevista:
Franz Fischler,
Comissário Europeu para a Agricultura e
Desenvolvimento Rural
Senhor Comissário, na sua qualidade de cidadão de um novo Estado
Membro da União Europeia, está em posição de trazer um novo olhar
sobre a política Comunitária. Como entende as medidas
empreendidas a favor do mundo rural desde há alguns anos?
Recordarei aqui as origens da política Comunitária do
desenvolvimento rural. Foi o relatório da Comissão sobre "O
Futuro do Mundo Rural", em 1988, que constituiu o ponto de
partida de uma política específica a favor das zonas rurais da
Comunidade. A reforma dos Fundos estruturais, em 1988 também,
concretizou esta nova orientação política, inserindo o
desenvolvimento das zonas frágeis dentro dos objectivos
prioritários da acção estrutural Comunitária.
Financiamentos de cerca de 15 mil milhões de Ecus, no total,
foram afectados de 1989 a 1993 ao desenvolvimento rural nas suas
diversas componentes. Graças aos bons resultados obtidos neste
período, o desenvolvimento rural foi considerado uma prioridade
política no Tratado da União Europeia. Este reconhecimento
político, ao mais alto nível, é para mim uma base sólida para
poder desenvolver ainda mais a política Europeia do
desenvolvimento rural.
Pelos meus contactos com os Ministros dos Estados Membros, sei
que os programas do período precedente são objecto de uma
avaliação amplamente favorável. Ainda mais importante para mim é
saber que os próprios habitantes das zonas rurais da União
apreciam esta política. Esta apreciação positiva já ultrapassou
aliás as fronteiras da União: a título de exemplo, os meus
compatriotas austríacos já estavam muito activamente empenhados
antes da adesão, na preparação dos programas de Objectivo 5b e do
LEADER II.
Que orientações pretende dar à política Comunitária do
desenvolvimento rural?
Considero que a política Comunitária do desenvolvimento rural
deve ser uma política de pleno direito. Não se identifica com a
política das estruturas agrícolas, pois deve ter em conta todas
as componentes da vida económica e social das zonas rurais. Não é
também um mero vector da política regional, porque está
vocacionada para cobrir o território rural da União Europeia, que
não se limita às regiões mais desfavorecidas, nem às que se
encontram em fase de adaptação estrutural.
Penso que as zonas rurais da União constituem um elemento
insubstituível da sociedade europeia. Noutros países
industrializados existem imensos territórios praticamente vazios
de qualquer presença humana, ao lado de espaços habitados onde se
concentram actividades intensivas. Não é o caso da União onde
quase todo o território está humanamente ocupado, à excepção,
claro, das zonas inabitáveis. Convém preservar em toda a sua
riqueza esta ocupação do espaço, que é especificamente europeia.
Se se insiste - muitas vezes, e legitimamente - nos problemas das
zonas rurais, gostaria quanto a mim de sublinhar também os seus
trunfos: um ambiente de grande qualidade, que constitui aliás a
base de novas actividades económicas; comunidades à dimensão
humana propícias à plena realização das pessoas; uma
surpreendente capacidade de inovar e empreender. A minha política
assenta na convicção de que as zonas rurais são uma oportunidade
para a União e têm, desde que as encorajemos, a capacidade de
levar a cabo o seu próprio desenvolvimento.
Para o período coberto pelos novos programas Comunitários, 1994-
1990, cerca de 30 mil milhões de Ecus serão afectados pela União
às intervenções especificamente relevantes para o desenvolvimento
rural. A minha primeira tarefa será velar pela concretização mais
eficaz possível destes financiamentos. Penso que a política
Comunitária de desenvolvimento rural deve orientar-se cada vez
mais para intervenções multi-sectoriais, tendo em conta o
conjunto das actividades económicas, sociais e culturais que
participam no desenvolvimento do meio rural. A agricultura
continuará sempre a ser um sector importante nas zonas rurais,
mas é preciso também desenvolver as outras actividades que
contribuem para a criação de empregos e de riqueza. Se a
abordagem multi-sectorial é já adoptada desde a origem nas
intervenções do Objectivo 5b, é preciso sem dúvida desenvolvê-la,
ou até introduzi-la, num determinado número de regiões do
Objectivo 1, onde se situam aliás as nossas zonas rurais mais
frágeis.
Uma segunda prioridade é o aprofundamento das parcerias com as
regiões rurais, quer dizer, a associação tão ampla quanto
possível das diversas representações regionais e locais aos
programas europeus. Uma condição para o sucesso dos programas é
também a tradução concreta dos princípios de transparência e de
proximidade do cidadão, aos quais atribuo a máxima importância.
A experiência do LEADER demonstrou a utilidade das iniciativas de
desenvolvimento local, especialmente para o desenvolvimento
rural, onde a diversidade das situações encontradas exige uma
resposta "à la carte" para permitir à população local a
realização dos seus próprios projectos.
Este aprofundamento dos programas deverá operar no âmbito do seu
funcionamento normal durante os anos futuros, sem pôr em causa os
seus objectivos e características próprias, e no pleno respeito
das parcerias.
Paralelamente, é preciso ajudar à realização de uma política
activa de desenvolvimento rural nos países terceiros que nos
rodeiam. Penso nos países que serão chamados a aderir à União e
onde a problemática rural desempenhará um papel-chave na
estratégia de integração. Penso também nos países da Bacia
Mediterrânea, onde a importância das zonas rurais justifica aí
também uma política consequente. Enfim, considero que é
necessário preparar rapidamente o futuro da política Comunitária
do desenvolvimento rural. É muito cedo para vos revelar as minhas
ideias sobre a matéria, mas pretendo lançar iniciativas concretas
já no próximo ano.
De certo modo o senhor Comissário "herdou" o LEADER. Que ideia
tem sobre ele?
EstouimpressionadopelarepercussãodaIniciativa
LEADER I, apesar dos seus meios financeiros modestos. A
multiplicação das candidaturas para o novo programa
LEADER II é a melhor prova disso. Apoiando um grande número de
projectos que envolveram directamente a
populaçãolocal,oLEADERIpermitiurevitalizarmaisde
duzentaspequenaszonasruraisdaUniãoereforçaro processo do
desenvolvimento local em alguns programas do Objectivo 5b.
O sucesso do LEADER ultrapassa aliás o desenvolvimento rural: com
efeito, este programa foi reconhecido como um exemplo das
iniciativas locais de desenvolvimento e de emprego que a Comissão
reconhece que permitem enriquecer o conteúdo do crescimento em
empregos. Trata-se de uma prioridade da estratégia europeia para
o emprego, cujo objectivo é que o crescimento económico crie um
número cada vez maior de empregos.
O que espera do LEADER II e quais são, em sua opinião, as
condições de sucesso?
Apoiando iniciativas locais de desenvolvimento integrado em meio
rural, o LEADER II dá continuidade ao LEADER I. A tónica,
contudo, é colocada em operações inovadoras, transferíveis e
demonstrativas, susceptíveis de trazerem novas respostas às
mudanças que afectam as zonas rurais.
A execução do LEADER II será a partir de agora descentralizada,
sob a forma de programas geridos em geral a nível regional. Esta
simplificação da gestão não muda em nada a característica
fundamental do LEADER, isto é, que as operações devem inserir-se
num processo de desenvolvimento local associando o conjunto dos
parceiros em torno de um programa concreto. As verbas
Comunitárias dedicadas ao LEADER II mais que triplicaram em
relação ao período precedente (cerca de 1500 MECU), mas sei que
as expectativas são enormes. Provavelmente mais de quinhentos
programas de desenvolvimento local serão apoiados em toda a
União: além do apoio dado aos projectos locais, trata-se de um
considerável capital de experiências que é preciso valorizar em
benefício de todas as zonas rurais.
Penso, por fim, que a possibilidade de apoiar, no âmbito do
LEADER II, acções de cooperação transnacional entre zonas rurais
da União, deveria suscitar um desenvolvimento importante de
operações simultâneamente originais e benéficas para as nossas
zonas rurais.
A meu ver, as condições importante para o sucesso do
LEADER II são as seguintes:
- o estabelecimento de verdadeiras parcerias a todos os níveis
- os grupos de desenvolvimento responsáveis por programas locais
integrados devem ser constituídos por uma ampla parceria
representativa a nível local
- os mecanismos administrativos devem ser simples, flexíveis e
encorajar a inovação.
Estas condições verificam-se nos programas aprovados até esta
data.
De uma maneira geral, a instrução dos dossiers LEADER II
apresentados à Comissão está bem avançada e espero ver aprovada
uma grande parte dos programas neste Verão.
Que expectativas tem quanto à nova "Rede Europeia do
Desenvolvimento Rural"?
Em funcionamento desde este ano, no âmbito do LEADER II, a Rede
Europeia do Desenvolvimento Rural representa o suporte
indispensável dos diferentes eixos da política de desenvolvimento
rural.
Espero da rede europeia que, valorizando os circuitos de
informação das redes pré-existentes no domínio do desenvolvimento
rural, e apoiando-se nos seus próprios meios de análise e de
comunicação, reuna, trate e difunda tão amplamente quanto
possível informações, experiências e resultados em matéria de
desenvolvimento rural. Deverá também assegurar a visibilidade da
política Comunitária. Contribuirá também para a reflexão sobre a
problemática das zonas rurais e sobre as suas perspectivas.
Enfim, dará o seu apoio técnico à montagem de certas operações
previstas nos programas LEADER.
A rede está aberta a todos os parceiros do desenvolvimento rural:
os grupos de desenvolvimento local beneficiários do LEADER II, as
administrações nacionais e regionais, as organizações não-
governamentais e as associações, etc. Faço um apelo à
participação activa de todos estes parceiros em benefício de um
desenvolvimento rural dinâmico na União.
fonte: LEADER Magazine nr.9 - Verão, 1995
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